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1.5.08

Quatro fotos e um instante de silêncio (Cairo)


Primeira foto: um casal jovem numa velha motorizada serpenteia entre os milhares de automóveis numa das principais avenidas da cidade. Se o mundo tem corações, um deles é o Cairo, batendo furiosamente, em perpétuo movimento. Nem Heródoto, quando escreveu o seu espanto de aqui haver serpentes aladas, podia imaginar que o Cairo se tornasse nesta terra de fantasia. As luzes não se apagam, as lojas não fecham, os carros nunca estacionam. Se nos concentrarmos, os milhares de buzinas ganham sentido. Os carros dialogam, numa grandiosa sinfonia urbana. A tentar saltar da tela, como o detalhe mais importante de uma grande pintura, está este casal, ele de camisa quase aberta e ela de véu a deixar apenas os olhos descobertos, abraçada à cintura dele, os dois montados na velha motorizada. Na foto, ficam apaixonadamente desfocados.
Segunda foto: um autocarro de turismo e dois camelos estacionados do mesmo lado de uma pequena estrada, em frente à Esfinge. É na manhã seguinte à nossa chegada, durante as únicas horas livres desta passagem relâmpago pelo Cairo. Os organizadores do festival que nos recebe nem sequer colocaram a hipótese de não nos levar a Gizé. Não interessa se és turista, se estás em digressão ou em negócios, se vens vender ou comprar. Se estás no Egipto vais às pirâmides e pronto. E pronto, lá viemos. E são efectivamente impressionantes. E toda a gente no mundo devia ter o direito a ir ver as pirâmides. E também é um inferno de turistas loiros a fazer fila e miúdos a enganar os turistas em várias línguas com a história do “monte-se aqui no camelo que eu tiro-lhe uma fotografia”. E até nas pirâmides há trânsito. E pronto.
Terceira foto: a plateia do Teatro Nacional do Cairo, ainda vazia. Faltam cinco minutos para o público entrar. O público será a elite do Cairo, maior metrópole africana. Serão ruidosos a entrar e, apesar dos figurinos a rigor, apesar da seriedade, nunca ficarão em silêncio. Haverá sempre um sussurrar na plateia, como buzinas muito discretas. No final, o aplauso será ruidoso e haverá conversas sonoras no foyer do teatro, antes de partirmos para o hotel.
Quarta foto: a vista da cidade, por volta das cinco da manhã, desde uma varanda do décimo primeiro andar do Hotel Oum Koultum. É um velho hotel junto ao Nilo, que carrega o nome da maior diva da música árabe. Daqui a umas horas partimos para o aeroporto, depois de apenas um dia nesta cidade. De súbito, ouvimos centenas de vozes que partem dos minaretes das mesquitas a chamar para a primeira oração do dia. O som vem de todos os lados. Depois silêncio. Nem buzinas, nem motores, nem a água do Nilo. Uma cidade de dezoito milhões de almas em silêncio por um instante. O ruído voltará, como uma avalanche de vida, mas durante aquele instante de silêncio foi quase possível acreditar em deus.

Tiago Rodrigues
Novembro de 2007
(originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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