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21.4.08

Mulheres a solo (Tunis)


Duas mulheres tumultuosas, imparáveis. A anfitriã é a tunisina Syhem Belkhodja e a convidada é a belga Anne Teresa De Keersmaeker, um dos nomes maiores da dança contemporânea europeia, que esta noite apresentou o seu solo Once, uma coreografia criada a partir de música de Joan Baez, no palco do Teatro Municipal de Tunis. Estão agora a conversar, num pequeno restaurante, rodeadas das respectivas entourages. Antes do início do espectáculo, Syhem discursou em árabe para as largas centenas de pessoas presentes e Anne Teresa quer agora saber o que ela disse. “Disse-lhes que iam ver um espectáculo muito bom e avisei-os que, se saíssem a meio, ia estar lá fora para lhes perguntar porquê”, responde Syhem.
A minha participação no festival Meeting Points 5, com a companhia belga tg STAN, leva-me agora a Tunis, uma das nove cidades árabes que acolhem esta iniciativa. Chegamos à cidade na mesma noite em que Anne Teresa De Keersmaeker apresenta o seu solo e, depois de um jantar rápido, juntamo-nos à pequena multidão que preenche uma parte do passeio da Avenue de Paris, enquanto espera que as portas do teatro abram. Chegados de Marrocos, acusamos de imediato a mudança de ares. Aqui quase não há mulheres veladas, os sinais exteriores de fé estão ausentes. Estamos no país de Habib Bourguiba, o presidente que, desde a independência em 1957 e até 1987, transformou a Tunísia num dos poucos Estados laicos desta parte do mundo e impôs medidas rigorosas de igualdade de direitos da mulher.
Syhem Belkhodja é um exemplo do sucesso das medidas de Bourguiba. Dirige um dos mais importantes festivais de dança do Norte de África, em Cartago, a sua cidade natal, e em Tunis é uma das mais influentes figuras duma vida cultural cada vez mais dinâmica, liderando a sua própria companhia de dança, uma escola de artes e a sala de espectáculos Ness El Fen.
Como se esta ceia após um espectáculo fosse um encontro entre duas princesas, todo o grupo se debruça para ouvir a conversa entre Syhem e Anne Teresa. Fala-se da mulher na sociedade tunisina, da ameaça do fundamentalismo, da inocência das canções de Joan Baez. Anne Teresa conta que foi Baez que convidou Bob Dylan a vir pela primeira vez à Europa, para a acompanhar em digressao, quando ele era ainda um desconhecido. Anos mais tarde, Dylan é já uma estrela e faz o mesmo convite a Baez. Anne Teresa conta que, nas imagens dum documentário, viu como Baez se sentava num canto do camarim, olhando com enlevo para Dylan, que era agora o centro das atenções. E Baez, à parte, tratada como se fosse uma desconhecida. Então há um olhar cúmplice entre Anne Teresa e Syhem, as princesas, como se ambas soubessem o que acontece a uma mulher que baixa a guarda, nem que por um momento.

Tiago Rodrigues
Novembro 2007
(texto originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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