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7.3.08

Não sou o Johnny Depp (Veneza)


A Piazza di San Marco já não é mais que um pequeno acidente na linha do horizonte. Chegamos ao Lido. O motor do barco faz agora menos ruído, aproximando-se do cais do Hotel Excelsior, a sede do festival. No passeio entre o cais e o hotel, há uma multidão de pessoas, liderada por dezenas de fotógrafos. A lancha atraca e a turba grita: We love you Johnny! Os fotógrafos atropelam-se, na procura do melhor ângulo. Saio da lancha e, quando ergo a cabeça, ouve-se um “oh!” monumental. Desiludidos, os jornalistas baixam as lentes. Não, definitivamente não sou o Johnny Depp.
Venho assistir à estreia mundial do filme “Mal Nascida”, do João Canijo, que é exibido na selecção oficial do festival. Rodada entre Fevereiro e Abril deste ano, em Trás-os Montes, é a primeira longa metragem em que participei. E as cumplicidades que nasceram entre os que fizemos este filme, justificam inteiramente um desvio na minha rota, vindo do Líbano, onde estive a ensaiar o meu próximo espectáculo, que estreará em breve em Espanha.
Ao contrário do Johnny Depp, fiquei alojado nos arredores, num hotel infeliz, a meia hora da Sereníssima, e pago a estadia do meu bolso. Quando chego ao Excelsior, tenho que pedir um quarto emprestado por uns minutos para vestir o traje a preceito que trago na minha mochila. Tinha medo que se amarrotasse durante a viagem. É a Márcia Breia, uma das actrizes que protagoniza o filme, que me empresta o seu quarto. Já vestido para a guerra, lanço-me na exploração do Lido.
A fauna deste lugar alimenta-se da esperança duma imagem fugaz na passadeira vermelha do Palazzo del Cinema, este ano decorado com uma enorme bola de aço a irromper pela fachada, em homenagem ao “Ensaio de Orquestra” de Fellini. Depois de me terem visto no meio dos famosos, duas velhinhas aproximam-se de mim e pedem-me um autógrafo. Relutante, lá assino o papel que me estendem. As velhinhas agradecem-me e depois perguntam-me quem sou. E eu penso: esta é a prova científica de que, em toda a ilha, só há duas espécies animais - os que pedem autógrafos e os que dão autógrafos.
O ecossistema só se altera quando surge o rei da selva, ou seja, um galáctico de Hollywood. E o prato do dia era Johnny Depp. Toda a cadeia alimentar se desequilibra e tanto os que pediam autógrafos como os que davam autógrafos transformam-se em fãs histéricos. Depp está a dois metros de mim, rodeado de seguranças. A multidão ondula em convulsões. Ainda penso em dizer-lhe: I love you too, Johnny. Mas estava muito barulho. Acho que ele não iria ouvir-me.



Tiago Rodrigues
Setembro de 2007

(texto originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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1 Comments:

  • At 10:48 da tarde, Blogger nanda said…

    Palaaaa d++++!!!!!!!!!

    Também neh, quem nao vira bicho perto desse homem?
    uhashusauhasuhasuhasuh

    ;**

     

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