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6.3.08

Welcome to Beirut



É apenas uma fotografia do Mar Mediterrâneo que nunca chegou a ser tirada. O polícia dirige-se a nós, de metralhadora a tiracolo. Exige que lhe entreguemos a máquina fotográfica. Explico que a foto nem chegou a ser tirada. O militar começa a enervar-se e exige o rolo fotográfico. Suspeita que estávamos a fotografar um edifício do governo. Talvez mais tarde vá descobrir que o rolo só tem fotos de uma criança portuguesa a brincar. Era a primeira foto que íamos tirar no Líbano. O militar arranca o rolo à máquina, com violência. Depois exibe um sorriso inesperado e diz: Welcome to Beirut.
Passei quase todo o mês de Agosto na capital libanesa, a ensaiar um espectáculo de teatro com o encenador Rabih Mroué e também com o arquitecto Tony Chakar. Já tinha estado na cidade para me encontrar com o Rabih. Voltei aos mesmo cafés, sobretudo o Torino e o De Prague, os únicos que nunca fecharam durante os bombardeamentos israelitas do Verão de 2006 e onde se concentrou a movida cultural. Depois do alívio festivo que ainda se vivia há seis meses, assisti este Verão a um regresso da tensão política e à paranóia dos atentados. Era frequente ouvir conversas sobre a eventualidade da guerra civil, assim, com normalidade, à volta de uma garrafa de cerveja Almaza.
Um dos sintomas desta tensão esteve todo o tempo mesmo ao meu lado. O Rabih Mroué, com quem estava a trabalhar agora, tinha estreado o seu último espectáculo em Tóquio e preparava-se para o apresentar em Beirute. A Securité General, órgão do governo encarregado da censura, decidiu proibir a estreia, alegando que o texto fazia referências demasiado directas à guerra civil e era, portanto, uma ameaça à unidade nacional. Uma inesperada primeira página do New York Times a noticiar o facto, acabou por transformar o Rabih num dos principais temas da política nacional.
Em plena crise, o ministro da cultura libanês publica um artigo a defender a exibição da peça e o fim da censura no país. Numa das diversas reuniões a que assisti, com artistas e produtores, o Rabih decidiu que a peça devia ser apresentada, nem que fosse ilegalmente, por apenas uma noite. E quando, na minha ingenuidade de europeu comum, pensava que a importância que pode ter uma peça de teatro já tinha ultrapassado todos os limites, aconteceu o mais invulgar de tudo. O primeiro ministro Fouad Siniora convoca um conselho de ministros e exige ao seu governo a autorização da estreia da peça. E embora esta seja uma prova da fragilidade de um país, é também um fragmento nostálgico de um mundo em que o teatro pode realmente influenciar a sociedade. O espectáculo esgotou. Welcome to Beirut.

Tiago Rodrigues
Setembro de 2007

(texto originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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