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13.3.08

Os nómadas (Marselha)


“E como é que ela está?”, pergunto, premindo rapidamente as teclas do computador, numa tentativa de aproximar esta comunicação via internet de uma conversa normal. “Ela” é a minha filha, que entrou há poucas semanas para a primária. “Ela está entusiasmada com a nova escola”, é a resposta que aparece no monitor. “O professor contou-me que ontem estavam a aprender o que eram os nómadas e, no fim da aula, ela disse: o meu pai é um nómada”.
O projecto Sites of Imagination chega agora a Marselha. São cinco espectáculos que fazem digressão juntos em diversos países do Mediterrâneo. Há espanhóis, portugueses, franceses, eslovenos, belgas, libaneses e italianos a viajar em conjunto: uma caravana feita de nómadas temporários. À chegada, todos recebemos um saquinho carregado de folhetos de informação turística sobre a cidade. Invariavelmente, cada um de nós retira de lá um mapa e a lista dos restaurantes. Tudo o resto – brochuras de museus, visitas guiadas, etc. – ficará dentro do saquinho durante toda a estadia.
Estar em digressão numa cidade não é visitá-la como um turista. É vivê-la de outra forma. É fingir por uns dias que se é parte da cidade. Uma anedota recorrente das várias digressões que já fiz é que basta os artistas estarem há umas horas numa cidade e acabam por ir todos dar ao mesmo café, onde irão todos os dias, em busca de uma qualquer rotina que a condição de viajantes lhes roubou.
Em Marselha, podemos visitar a Isle d’If, onde ainda hoje se pode ver o túnel escavado pelo Edmond Dantés que Alexandre Dumas imortalizou. Podemos visitar L’Estaque, que serviu de cenário à pintura de Cézanne e Renoir, ou a Cité Radieuse, uma das mais emblemáticas e utópicas obras de Le Corbusier. Em vez disso, repetimos a anedota. Numa esplanada do centro de Marselha, onde há internet de borla, termino a minha conversa e desligo o computador. Olho à volta e descubro vários dos artistas do projecto espalhados pelas outras mesas. Uns bebem pastis 51, outros fumam Gauloises e outros ainda comem ostras compradas a bom preço num quiosque de rua. Lê-se o Liberation e fala-se do último disco dos Massilia Sound System, do desafio de rugby entre a França e a Geórgia ou da importância do ensino do velho dialecto “occitaine” nas escolas públicas. Todos fingimos ser marselheses, nas poucas horas que antecedem os nossos espectáculos. Todos fingimos estar em casa.
Espero que o professor não tenha corrigido a minha filha. Porque somos realmente nómadas, acreditando que só nos faz falta o que temos na bagagem e tentando fazer de cada cidade a nossa casa. Como se a nossa vida fosse isto.

Tiago Rodrigues
Outubro 2007
(texto originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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