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26.3.08

Relações Internacionais (Liubliana)


É a única mesa onde há espaço na esplanada. O bailarino italiano senta-se e só depois pergunta ao cliente que lá estava sentado se não há problema em invadirmos a sua mesa. Somos um grupo composto por três espanhóis (na verdade, são bascos), uma libanesa, o já mencionado e descarado italiano, um português e um belga. O cliente sorri um sorriso tímido. Mais habituado aos inesperados encontros das digressões, o belga do grupo mete conversa com o desconhecido. É John Hubbard, americano que veio do Arkansas para a Eslovénia estudar Relações Internacionais. “Então encontraste o grupo certo”, responde o belga. Primeira gargalhada.
Estamos em Liubliana, capital da Eslovénia e última etapa da digressão de Yesterday’s Man e de quatro outros espectáculos, inseridos no projecto Sites of Imagination. Depois de Espanha, França, Portugal e Itália, chegamos ao primeiro país onde o Outono é realmente frio. Ninguém estava preparado. Todos vamos às compras. Como o Ministério da Cultura português ainda não pagou nem um tostão do apoio que deu ao espectáculo em que participo, acabo por ter que pedir dinheiro emprestado para poder comprar um camisola. “Sem ressentimentos”, como escreveu Jorge Sousa Braga no poema curiosamente intitulado “Portugal”.
Já agasalhados, vamos encontrar John numa das inúmeras esplanadas do centro da cidade, quase integralmente desenhado pelo arquitecto Joze Plecnik e pleno de recantos pitorescos, antiquários, galerias e muitos cafés. Com o americano como espectador, o almoço transforma-se rapidamente numa performance multicultural. Brincamos às famílias, como miúdos, fingindo que somos todos parentes apesar das diversas nacionalidades. John, gigante loiro, começa aos poucos a participar da conversa, fascinado talvez pela excentricidade do grupo.
A conversa é agora sobre a antiga prisão transformada num péssimo hotel em que alguns estamos instalados. Planeamos fazer um filme nas celas transformadas em quartos e discutimos os pormenores surrealistas do guião. Muitas gargalhadas. A propósito de prisões, o belga fala de membros dos Black Panthers que visitou em prisões americanas. Uma basca fala do seu cunhado, actualmente preso em Espanha por alegadas ligações à ETA. Conta que ele fez centenas de desenhos da mesma paisagem, a única que vê da janela da sua cela. Agora chora-se à mesa.
Depois deste almoço, John tornar-se-ia nosso companheiro durante uma semana e a descoberta mais interessante desta passagem pela Eslovénia. Imagino-o agora, depois da nossa partida, a recordar tudo o que foi dito durante aquele almoço para escrever um novíssimo e revolucionário Tratado de Relações Internacionais.


Tiago Rodrigues
Outubro 2007
(texto originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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