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9.4.08

Antígona em Marrocos (Rabat)


A conversa começa numa pequena esplanada dum parque, nas traseiras do Teatro Nacional Mohammed V. Entre os jovens actores marroquinos que se encontram connosco, está apenas uma actriz: Touria. “Gostei muito do vosso espectáculo”, diz ela. “Tenho tanta pena de não ter podido ver até ao fim. O meu marido não estava a gostar e obrigou-me a sair com ele a meio”.
Touria, 24 anos, marroquina, actriz que dá aulas de teatro a crianças, está a falar dos espectáculo Les Antigones, da companhia belga tg STAN, com o qual estou neste momento em digressão. É um espectáculo que apresenta duas versões da tragédia de Antígona. A primeira de Jean Cocteau, datada de 1922, que é um vol d’oiseau sobre o original de Sófocles, e a segunda de Jean Anouilh, de 1944, uma versão onde a psicologia se mistura com os arquétipos trágicos e são visitados os bastidores do mito. O espectáculo foi criado em Toulouse, há seis anos, tendo feito digressão por diversos países (em Portugal, foi apresentado no antigo espaço do Teatro da Garagem). Retomamos agora esta peça para a apresentarmos no Meeting Points 5, um festival organizado por nove cidades do mundo árabe, entre as quais se conta Rabat.
É precisamente em Rabat que eu e os quatro actores belgas com quem partilho o palco neste espectáculo recordamos uma lição básica do teatro. A mesma frase, dita da mesma maneira, tem um significado diferente para cada pessoa na pateia. O mesmo se pode aplicar às cidades. Um espectáculo é entendido de forma diferente de cidade para cidade, de país para país, de ano para ano. O teatro vive das circunstâncias. Em 1944, quando Anouilh estreou a sua versão de Antígona no Théâtre de l’Atelier, em Paris, o público viu na peça um debate sobre o governo de Vichy e os colaboracionistas. Em 2001, quando estreámos o espectáculo em Toulouse, no Théâtre de La Garonne, o público entendeu que estávamos a falar de Le Pen. Hoje, em Rabat, o público quis entender que Antígona é um símbolo da emancipação da mulher, uma ameaça ao patriarcado.
Depois de dois espectáculos no Mohammed V, somos nós, os actores, quem está cheio de perguntas e os papéis invertem-se, durante ente encontro com os espectadores. Ficamos a saber que frases como “j’ai assez pleuré d’être une fille” e o permanente gesto de arrogância de Antígona perante o poder masculino de Creonte, ainda incomodam alguns espectadores. “É claro que estamos habituados a ver tudo isso na televisão e no cinema, mas no teatro é diferente. Está a acontecer aqui, em Marrocos, à nossa frente”, diz Touria. A conversa continua, tarde dentro, mas Touria não pode ficar muito mais tempo. O marido vem buscá-la. Nunca chegámos a contar-lhe como acaba o espectáculo.

Tiago Rodrigues
Novembro 2007
(texto originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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