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7.5.08

A ovelha negra (Cardiff)


É uma workshop de um dia com o objectivo de falarmos da forma como trabalhamos. Há actores, estudantes de teatro, encenadores. A maior parte assistiu ao nosso espectáculo ontem à noite. Começámos há cerca de dez minutos. Um dos participantes, o mais velho entre nós, homem a atirar para os seus 65 anos, intervém com um inglês de sotaque carregado. “Vi o vosso espectáculo e é a coisa mais parecida que já vi com uma boa missa”.
Estamos numa antiga sala de aula do Chapter, antiga escola de Cardiff que nos anos sessenta foi transformada em centro cultural e se tornou num marco do teatro britânico. Somos vinte pessoas sentadas em círculo, entre os quais os outros dois actores com quem fiz o espectáculo. Entreolhamo-nos, provavelmente pensando os três a mesmíssima coisa. Já ouvi muitas opiniões sobre os espectáculos que faço, mas a comparação com uma missa é um elogio, no mínimo, preocupante.
Entre os vários comentários ao nosso trabalho que pontuaram o início do dia de trabalho, este destacou-se por não parecer vindo de uma pessoa de teatro. “É verdade”, explica-nos John. “Eu não faço teatro. Pelo menos, do mesmo modo que vocês. Eu sou padre”. Explico-lhe que, correndo o risco de parecer preconceituoso, estou surpreendido por ver um padre no teatro, ainda mais a participar numa workshop. John não acusa a pequena provocação. “Estou aqui para aprender coisas que me possam ajudar a servir melhor o meu rebanho. Se o meu público saísse da Igreja tão entusiasmado como o vosso saiu do teatro, ficava feliz”. E, com humor, acrescenta: “se calhar sou a ovelha negra do vosso rebanho, mas ainda vou a tempo de aprender”.
É numa pequena vila do Pais de Gales, terra de nome gaélico indizível perdida no verde das paisagens infestadas de ovelhas, que John pastoreia o seu rebanho. E é nítido que não está disposto a regressar a casa sem novas técnicas litúrgicas. Enquanto outros participantes nos falam em jargão teatral, perguntando onde nos colocamos entre Stanislavsky e Brecht, John emprega termos como “espiritual” ou “inspirado”. Quando falamos da forma como o público pode influenciar o que fazemos, John volta à carga: “na minha linguagem, chamamos a isso comunhão”. No entanto, o mais surpreendente é que, apesar do vocabulário deslocado, é claro para nós que John é, entre os presentes, um dos que melhor compreendeu o que tínhamos para dizer.
No final do dia, pergunto-lhe se não percebeu a minha provocação, quando disse estar surpreendido por ver um padre no teatro. “Dear Tiago”, diz John, “se eu não encarasse com a naturalidade vir a uma peça tua, como é que poderia encarar com naturalidade tu um dia vires à minha igreja?”. É verdade que, dependendo dos dias, qualquer um de nós pode ser a ovelha negra.


Tiago Rodrigues
Dezembro de 2007
(originalmente publicado no suplemento Actual do semanário Expresso)

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