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11.4.04

Bolinhas, o fim de uma amizade

Há cerca de uma semana, estava a atravessar a avenida Brito Pais, na Amadora, a caminho de ir buscar a minha filha. Ao passar nessa avenida, que fica muito perto do liceu que frequentei (“frequentei” seria uma expressão mais correcta se aplicada aos cafés circundantes), um rapaz que eu não conhecia, com cerca de 20 anos, dirigiu-se a mim. “Vi-te ontem na televisão. Muita giro!” O rapaz referia-se a uma pequena participação que fiz no programa O Homem Que Mordeu O Cão, do Nuno Markl, onde interpretei um pequeno número de comédia. Provavelmente já me cruzei centenas de vezes com este rapaz moreno e magro, com boné à condutor de carro de tunning. Provavelmente ele já me poderia ter visto actuar várias vezes nos Recreios da Amadora, onde vou voltar esta semana, para apresentar o Stand-up Tragedy nos dias 16 e 17. No entanto, este rapaz com quem já me cruzei anonimamente não sei quantas vezes, veio neste dia cumprimentar-me por se ter cruzado comigo num ecrã de televisão. Por mim tudo bem... Agradeci-lhe e segui caminho a pensar que é verdade a minha teoria segundo a qual, cada vez que apareço na televisão, os meus vizinhos tratam-me muito melhor durante cerca de 15 dias.
O curioso é que bastou caminhar mais alguns metros para, num pequeno espaço verde da zona, me esperar outra surpresa. Esta sim, com dimensão para que lhe chamemos “surpresa”. Nesse pequeno jardim ladeado por dois lotes de prédios ao estilo Jota Pimenta, vive há cerca de 10 anos uma cadela chamada Bolinhas. A Bolinhas tem uma história gira. Quando eu andava no liceu e, como no início vos dei a entender, passava mais tempo no café do que na sala de aula, a Bolinhas foi a mascote de uma geração de estudantes. Apareceu de um dia para o outro. Ela e o seu amante, o Pastilhas. A Bolinhas é um labrador e o Pastilhas, o macho lá de casa, era um terço do tamanho da sua companheira. Mercê da sua simpatia para com os habitantes da esplanada mais próxima, a Bolinhas foi adoptada pelos clientes do café Tás Aqui, Tás Ali. E foi ficando. E foi sendo bem recebida pelos inquilinos (sobretudo as inquilinas) dos dois lotes de prédios Jota Pimenta.
Eu sempre fui dos mais fiéis amigos da Bolinhas, o que se justifica pelo facto de também ser um dos mais fiéis clientes do café. Nessa altura cheguei a escrever uma pequena crónica sobre a Bolinhas, com foto e tudo, publicada no jornal GrandAmadora, onde colaborava. Para glória da cadela e do escriba, essa crónica foi emoldurada e esteve pendurada uns anos na parede do café. Há 10 anos que a Bolinhas vive naquele arremedo suburbano de jardim, numa casota improvisada com contraplacado da autoria dos seus amigos bípedes. Entretanto foi sendo adoptada por sucessivas gerações de estudantes, que porventura a ajudaram a ultrapassar o desaparecimento do seu pequeno amante, o cão de pêlo negro conhecido por Pastilhas.
Ao passar por esse jardim, na semana passada, a Bolinhas viu-me e, em vez da habitual aproximação doce e de cauda a abanar, a cadela correu até mim a rosnar. O seu pêlo alaranjado é agora quase todo branco e está mais pesada. Talvez também eu tenha mudado, pensei. Chamei-a Bolinhas, estendi-lhe a mão para cheirar. Ela parou de ladrar um instante, ganiu e, quando parecia estar a reconhecer-me, rosnou novamente e tentou morder-me. Afastei-me. Confesso que um pouco magoado. Pensei no que teria motivado a agressividade da cadela. Será que não me reconheceu? Penso que sim. Penso que me reconheceu durante o instante de silêncio. Então porque voltou a tentar morder-me? Não é possível que ela tenha visto O Homem Que Mordeu O Cão e tenha pensado que o título do programa fosse mais que uma metáfora. Então o que foi? Em que é que eu mudei para que humanos que nunca me cumprimentaram agora venham dar-me os parabéns e uma cadela que sempre foi meiga para mim, tente agora morder-me? A verdade é que os animais são os primeiros a sentir que se aproxima um furacão. Confesso que fiquei assustado.

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